Revoltas Diárias

Não importa se só tocam o primeiro acorde da canção A gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão. Nos interessa o que não foi impresso e continua sendo escrito à mão Não interessa o que o bom senso diz Não interessa o que diz o rei Se no jogo não há juiz, não há jogada fora da lei Não interessa o que diz o ditado Não interessa o que o Estado diz Nós falamos outra língua, moramos em outro país.

Thursday, February 21, 2008

Quem é pobre? Quem é rico?

Essas são mais umas provas de que o capitalismo é o mal mundial, pois só visa seu próprio benefício:
"Era um dia de muito calor. Mas a cabana de palafitas era fresca e bem ventilada. Estava a 20 mil km fora do meu apartamento alugado, agora junto com a família Papua de cinco pessoas, às margenes do Rio Ok Tedi. Nas refeições ofereciam-me batata-doce, sagu e legumes. Quase tudo de que precisavam para viver chegavam de seus próprios jardins florestais cheios de frutas e legumes, às margens do rio. Caça, remédio e lenha chegam do mato perto da horta e o rio era repleto de peixes. Eu estava cheio de admiração e inveja. Eles tinham tudo que eu não tinha. Eles tinham uma casa, uma grande horta e jardim, e um território próprio. E eu não tinha nada disso, somente um trabalho dependente para ajudar-me mais ou menos a pagar aluguel, telefone, alimentação, computador e energia elétrica. Em comparação aos meus generosos anfitriões, eu era pobre. Mas na definição do Banco Mundial e de instituições para o desenvolvimento, esta família que tem tudo que precisa é uma das famílias mais pobres do mundo, porque esses Papuas não ganham nem um dólar por dia. O fato é que eles não têm nenhuma necessidade de ganhar dinheiro."*
Deveríamos sentir vergonha de precisar de um dólar por dia para viver, quando na natureza temos tudo, e a terra é de todos. Deveríamos sentir vergonha de sermos escravos do capitalismo, que quer acabar com esses povos que tem sua própria terra, seu próprio alimento, que ainda é mais saudável do que nossas porcarias industrializadas, em nome do desenvolvimento, que na verdade, são passos para trás, passos em direção a nos deixarmos pobres de verdade e tornar os ricos mais ricos. E é o que na verdade somos: Pobres por sermos escravos do capitalismo.
"No mundo, a cada ano, milhões de pessoas perdem a terra e a existência - em função de projetos de desenvolvimento equivocados que só almejam o mercado mundial via fornecimento de matérias-primas baratas e trabalhadores baratos transformados, neste momento, em pobres de verdade, porque passaram a receber um dólar por dia."*
Você não sente vergonha? Eu sinto!
*trechos extraídos da Revista Cidadania e Meio Ambiente; "Desenvolvimento: Pra que e para quem"; por Norbert Suchanek.

Thursday, February 07, 2008

Uma primavera diferente

Sempre gostei de Cecília Meireles. Gosto do jeito que ela escreve, os assuntos que escreve. Sempre têm aqueles escritores que a gente se identifica mais, outros a gente nem gosta do estilo nem do jeito como escrevem. Em todas as provas de concurso, lá estão textos ótimos, e no último que eu fiz, havia um, pra variar, ótimo da Cecília Meireles, que fala desses mesmos assuntos que falei nos últimos dois posts: que devemos abrir os olhos depressa para a natureza, para o que ainda resta, porque ela vai se acabando, por nossa culpa. Fala da capacidade do homem de mudar tudo ao seu redor, e que isso nos faz perder a capacidade de ver as coisas como são, como Deus fez. Quem tiver paciência para ler, acho que não vai se arrepender. Ou, pelo menos, não deveria...


PRIMAVERA
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, - e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, - e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, - e só os poetas, entre os humanos, sabem que a deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, - e os ouvidos que por acaso ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada cor vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicolor.
Tudo isso para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, - por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida - e efêmera.