Revoltas Diárias

Não importa se só tocam o primeiro acorde da canção A gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão. Nos interessa o que não foi impresso e continua sendo escrito à mão Não interessa o que o bom senso diz Não interessa o que diz o rei Se no jogo não há juiz, não há jogada fora da lei Não interessa o que diz o ditado Não interessa o que o Estado diz Nós falamos outra língua, moramos em outro país.

Monday, September 25, 2006

Os tempos de solidão

Às vezes a gente se fixa em uma pessoa e passa a achar que ela é a certa para nós, quando na verdade não se passa de uma fixação mesmo. Cismamos que ela tem tudo que a gente quer, que vai nos fazer feliz, mesmo quebrando a cara várias vezes. Não percebemos que às vezes a pessoa que realmente vai nos fazer feliz é aquela que nem imaginamos que poderia.
Não sei se existe pessoa certa, se existe para sempre, não sei, não sei. Ora eu acho que sim, como agora, mas e se depois eu mudar de idéia? Melhor dizer que não sei, mesmo que esteja sentindo que sim. Às vezes são as pessoas apaixonadas que têm essas manias, e eu não quero me considerar uma apaixonada, porque os apaixonados sempre se desencantam depois e se perguntam o que é que viram em tal pessoa. Passam dias sonhando acordadas e depois tudo não passa de um sonho na verdade. A gente pensa que sabe de tudo, que sabe até quem é a pessoa ideal para nós, mas eis que o destino nos prepara uma surpresa. Bom, não sei se isso acontece com todo mundo, eu até achava que seria incluída para sempre entre "all the lonely people", com minhas próprias ideologias, minhas próprias fantasias e sonhos, minhas próprias anormalidades, coisas fora do comum, até que me vejo no meio daquelas pessoas de sorte, que encontram alguém quando menos se espera. No fundo, eu sentia que alguma coisa boa estava para acontecer, que eu deveria mesmo ter esperança, só me bloqueava um pouco para não quebrar a cara. Mas olha só que surpresa! Minha lista de qualidades que eu procurava numa pessoa (claro, eu não parei para imaginar seus defeitos!) está agora riscada! Por incrível que pareça, me lembrei de procurar um caderno onde escrevi tudo que queria encontrar em alguém (quando eu achava que tinha encontrado em alguém pelo qual estava "fixada") para ver se agora batia com a realidade. Eu me surpreendi com o destino que eu não botava muita confiança. Estava lá, tudo compatível com a realidade. Coisas meio idiotas para alguns, mas que pra mim faziam sentido, porque eu não consigo me prender a alguém por muito tempo se não tiver o quê dividir com ele.
Por isso eu digo: não, não vou dizer frases de livros de auto-ajuda, e não vou dizer para nunca desistir ou continuar procurando alguém para se apaixonar, porque é sempre quando menos se espera. Isso é uma coisa que eu aprendi. Todas as vezes foi assim, e agora mais do que nunca, sei que todo o tempo de solidão não é tempo perdido. É um tempo bonito, em que aprendemos mais, porque a tristeza nos faz crescer e a solidão também. Enquanto estamos sozinhos, sabemos analisar melhor as coisas.
Então preste atenção (eu sempre prestei atenção nestes versos de Herbert Vianna):
"Por ser tranqüilo, por ser sincero
Não me preocupa
O que não for, é o que vai passar"
É isso: o que não for, é o que vai passar.

Sunday, September 03, 2006

Quando eu era criança

Quando eu era criança, achava os adultos chatos. Achava que os adultos só ficavam entre os adultos, conversando assuntos chatos de adultos. Parecia que a vida deles era um tédio, cheia de problemas, o tempo todo pensavam em como resolvê-los. Eu pensava em brincar, não pensava em dormir, porque dormir era uma perda de tempo, menos temp0 para brincar. E se eu dormia à noite era porque o dia precisava nascer logo para eu brincar outra vez.
A vida se resumia em brincar. Junto com as outras crianças, inventava as coisa mais loucas que se possa imaginar. Parava para comer porque era obrigada, mas sentia que o tempo ia passando enquanto eu estava sentada à mesa comendo. E os adultos permaneciam lá após o almoço, conversando assuntos chatos de adultos.
Aproveitava o dia ao máximo, me escondendo em lugares longe, fugindo da polícia, correndo atrás de ladrão (normalmente eu gostava de ser ladrão). Bancava a adulta às vezes, fazendo comidinha e cuidando de bebê (que machismo!). Beijava o meu urso, era o meu marido. Usava botas longas, cordões e bolsas da minha mãe, era uma mulher rica. Ou então virava uma professora, fazia provas e tudo mais, ensinava às amigas o que nem eu tinha aprendido - o que ninguém soube me ensinar.
Voltava para casa com a roupa suja e o cabelo embaraçado, e os adultos vinham com a janta pronta. Enquanto assistiam a novela e conversavam sobre assuntos chatos, ainda dava tempo de bolar alguma idéia para a próxima brincadeira. Como é criativa a mente de uma criança!
Quando eu era criança, imaginava que os adultos nunca foram crianças e por isso mesmo perdiam tempo conversando assuntos chatos e fazendo coisas chatas, sem aproveitar o dia. Hoje eu vejo as crianças e penso: como eu era tolinha... Os adultos sabem muito bem como é ser criança, parece mesmo que foi ontem, é que o tempo passou tão depressa que eu nem percebi, nem sabia que ia virar uma daquelas "adultas chatas" e esquecer de aproveitar o dia... (isso porque o dia era longo quando eu era pequena).